quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Germano Woehl - Protetor de animais não é só proteger cães e gatos



O catarinense Germano Woehl Júnior tem duas vidas. Numa, é físico. Ganha a vida com diplomas, sobretudo o doutorado na Universidade de Campinas, produto de uma tese sobre o comportamento do átomo de cálcio congelado em raio laser. Trabalha no departamento de Fotônica do Instituto de Estudos Avançados do Centro Técnico Aeroespacial de São José dos Campos, um ninho de cobras no interior de São Paulo. No laboratório, sua função é ver longe, buscando agora soluções para problemas práticos que os brasileiros talvez só venham a saber que têm daqui 50 anos.

Na outra vida, ele é herpetologista. Autodidata, mas exaltado. Não leva para casa com isso um centavo. Ou pior, gasta quase tudo o que ganha no emprego de São José dos Campos sustentando a obsessão pessoal em Santa Catarina. É lá que cuida de sapos, rãs e pererecas, briga com as motosserras que lanham as últimas grotas de Mata Atlântica no interior do estado e raspa seus cofres de assalariado para comprar relíquias da floresta, antes que os proprietários as destruam.


E usa as folgas para pegar no pesado em Guaramirim, na borda da serra catarinense. Entre a casa e o trabalho, viaja 670 quilômetros. E sempre que pode vai de ônibus, porque botar o carro na estrada é queimar dinheiro. Em Guaramirim, Germano e sua mulher, a professora de Educação Física Elza Nishimura Woehl, criaram, mantêm e encarnam o Instituto Rã-Bugio, uma ONG que, na prática, não é mais nem menos a pessoa jurídica do serviço voluntário que o casal fazia por conta própria desde 1998 . Na ONG os dois tentam ensinar os brasileiros a resolver agora os problemas que daqui a 50 anos deixarão de ter remédio.

Um instituto como o deles qualquer um pode fazer. Há organizações sem fins lucrativos que sustentam antes de mais nada seus beneméritos fundadores. O Rã-Bugio, não. A ONG é que tomou conta daquilo que era deles. Ocupa o terreno comprado em 1994, quando o instituto ainda nem existia, por R$ 12 mil. Em 2003, definitivamente convertida em espaço público, o sítio ganhou dois banheiros externos, um investimento de R$ 2.500, porque o interno já não dava conta da clientela. Calçar os 150 metros de trilhas, prevenindo os efeitos colaterais do pisoteio crescente, custou R$ 2 mil reais em lajotas, que o próprio Germano encaixou no chão. A sede do Rã-Bugio é a casa que arrumaram para morar. O jipe Toyota Bandeirante comprado de segunda mão estaciona entre cartazes, mapas e fotografias numa espécie de garagem, que sem a menor cerimônia vira auditório, mal pára na porta um ônibus carregado de escolares.

Essa é a parte fácil de se fazer um Rã-Bugio. A difícil é achar outro casal como Elza e Germano. Ela vem de uma família de agricultores do norte do Paraná, onde colheu algodão até os 17 anos. Enquanto crescia, via as florestas à sua volta encolherem até acabar. Conheceu o marido em 1981. E ele se convenceu de que tinha casado com a pessoa certa no dia em que a ouviu falando sozinha, enquanto arrumava o quarto onde moravam em Guaramirim. Foi ver o que havia. Encontrou a mulher tentando convencer uma lagartixa, com os melhores modos possíveis, a descer da cama.

Germano credita a Elza a centelha inaugural do Rã-Bugio, por causa da perereca de três centímetros que se aboletou na sua cozinha e viveu com o casal durante um ano inteiro, impondo alterações na rotina doméstica, para não saltar em panela quente ou mergulhar no sabão. Chamava-se Pili. Foi o primeiro anuro que o físico fotografou e levou aos biólogos da Unicamp, para identificar. Com o tempo, Germano saberia tudo sobre a Pili.

Ele cresceu ali perto, no planalto catarinense. Primeiro, como filho tardio de um pequeno empresário que, viúvo depois de quarentão, foi viver com uma mulher 26 anos mais moça do que ele. Quando o pai morreu, Germano perdeu tudo, a começar pela mãe. Criou-se capinando roça e entregando leite na cidade de porta em porta. Aos 11 anos, de enxada na mão, botou na cabeça que queria ser “pesquisador”. O projeto, além de implausível, era bastante vago. Mas, quatro formaturas depois, Germano estava publicando em revistas científicas artigos sobre a “atividade óptica passiva para geração de segundo harmônico com um laser de diodo de baixa potência” ou sobre “cavidade dobrada e incidência rasante para sistemas oscilador e amplificador de lasers de corante pulsados”.

Foi assim, com o suor de Germano, que os sapos, rãs e pererecas dos banhados catarinenses subiram na vida. À custa, é claro, de baixar os padrões de consumo do casal, que por sinal nunca tinham sido lá essas coisas. Ele, para não gastar com supérfluos o tempo que investe em bichos e plantas da Mata Atlântica, desistiu de dar aulas de Física em universidades particulares, que triplicariam sua renda. Ela, por ser 50% da equipe do Rã-Bugio, passou a morar em Guaramirim, enquanto a outra metade da ONG está em São Paulo. Os dois, desde que decidiriam fazer tudo juntos, tiveram que se separar.

Levam uma existência para lá de franciscana, até pela intimidade com os animais. Consomem tão pouco que o lixo do Rã-Bugio, com baixos teores de lata, plástico, papel e vidro, costuma ser reciclado ali mesmo no terreno, como adubo orgânico. Perderam há muito tempo o hábito de ir ao cinema. Quando querem entreter um hóspede de certa cerimônia, é notória sua perplexidade diante do cardápio de um restaurante. E não adianta perguntar a Germano, assim, como quem não quer nada, qual é a etiqueta da roupa que tem no corpo. A resposta invariável é uma cara de espanto.

Em compensação, ele e Elza estão sempre prontos para falar sobre os detalhes que garimparam nos sete hectares do Rã-Bugio. Falam tanto nessas ocasiões, que esticam uma trilha de 150 metros num programa de pelo menos hora e meio floresta adentro. Lá tudo tem nome, explicação científica, sabedoria popular, história, causa e efeito. Ou seja, razão de existir. O maior trunfo do Rã-Bugio não é propriamente o mato, mas a curiosidade insaciável que os donos têm sobre ele. “Procuramos passar aquilo que sentimos, e isso nos confere uma vantagem imensa, pois achamos que as crianças percebem quando os adultos estão mentindo, quando não estão sendo sinceros”, diz Germano.

Dito assim, o projeto soa tão simples que quase bateu na trave, quando em 1999 concorreu pela primeira vez ao patrocínio da Fundação O Boticário. O Rã-Bugio, na época, não tinha nascido. Faltava à proposta o aval de um centro de pesquisa. Seu título,Crianças Salvando Anfíbios e a Floresta Atlântica, dava a impressão de ultrapassar a competência de Germano. E vinha embrulhado num pedido irrisório demais para ser levado a sério. Queria cerca de três mil reais para uma campanha destinada a convencer os alunos de escolas catarinenses que os anuros não merecem a reputação que lhes impusemos, de serem bichos feios, peçonhentos, repugnantes e maléficos. Eles são apenas os bichos mais difamados da natureza. Logo, quem se reconcilia com eles está pronto para fazer as pazes com toda a floresta.

O projeto só escapou por ter chamado a atenção de um dos consultores técnicos, o engenheiro florestal Carlos Firkowski, da Universidade Federal do Paraná. “Peguei, li detalhadamente e passei a defender com unhas e dentes aquele tal de Germano Woehlde que nenhum de nós jamais ouvira falar”, recorda Firkowski. A partir desse primeiro empurrão, Germano não parou mais.

Em cinco anos, experimentaram suas trilhas 10.600 estudantes, 600 professores e 1.600 visitantes avulsos, transformando o Rã-Bugio num curto desvio do circuito turístico habitual na serra de Dona Francisca. O ingresso lá continua gratuito. Mas o que deveria ser, em princípio, um passatempo do casal virou em 2003 o Instituto Rã-Bugio para a Conservação da Biodiversidade. Em suas terras, classificaram-se 41 espécies de anuros. As fotografias de Germano, que estreou com o retrato da Pili, formaram uma coleção de 70 sapos, rãs e pererecas, que circulou por 120 cidades catarinenses, em exposições itinerantes vistas por 25 mil pessoas. A WEG, que fabrica motores elétricos em Jaraguá do Sul, usou-as numa cartilha ilustrada que apresentava os bichos a adultos e crianças, distribuindo 30 mil exemplares do folheto em escolas públicas do município.

Os hectares do casal se multiplicaram. Onze anos depois de comprar o primeiro terreno, Elza e Germano haviam arrancado dos dentes das motosserras mais 126 hectares de florestas em Itaiópolis, no norte do estado, onde estavam costurando retalhos de Mata Atlântica para um dia registrá-los como Reserva Particular do Patrimônio Natural. Seu método territorial ainda era o mesmo dos primeiros tempos. Sacaram R$ 47 mil da poupança para adquirir terras que ambos fazem questão de nunca usar.

A essa altura muita coisa havia mudado em volta deles. O Rã-Bugio deu cria. Gerou um clone de 40,6 hectares a 50 quilômetros de Guaramirim. Chama-se Centro Interpretativo da Mata Atlântica. Está se instalando num terreno cedido pela prefeitura de Jaraguá do Sul e desta vez contava desde o princípio com o apoio de empresas locais para construir a sede. A réplica é seis vezes maior do que o original. E dessa vez a dupla não precisou correr atrás de apoio. A cidade é que lhe pediu para tomar conta da reserva. E a Sociedade Educacional do Vale do Itapocu (SEVITA/FAMEG), uma universidade local, doou R$ 120 mil para a ONG, que passará a treinar voluntários ambientais entre seus alunos. Quer saber como Elza e Germano puderam ir tão longe partindo de tão pouco? “Não tem segredo. É só não trocar de carro a cada dois anos”, ele responde.

Marcos Sá Corrêa (jornalista da VEJA por 25 anos, editor chefe da Revista Época, JB e colunista do Estadão)

Esta reportagem faz parte de um livro sobre os 15 anos da Fundação O Boticário.
Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade
Jaraguá do Sul – SC

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