domingo, 4 de dezembro de 2011

Parem de matar os cachorros !!!


(ou a memória é um retrovisor que não tem como arrancar)

Arte de Hans Hofmann

Na BR-116, é certo que encontrarei engarrafamento e cachorro morto. A cada animalzinho estirado na mureta, tapo os olhos de meu filho Vicente – não é uma boa recordação para se levar à escola logo de manhã.

Mas fui notando que teria que deixá-lo vendado o trajeto inteiro. No intervalo de 10 quilômetros, avistava um novo corpo já despossuído de alma e Deus, inchado e anônimo, sem a gentileza de cruz e o amparo da coleira.

Cachorro atropelado na Grande Porto Alegre é tão frequente quanto as capivaras abatidas na BR-471.

Procurava desvendar como o cão atingiu o miolo da estrada. Na minha idealização, o bicho esquecera o caminho de volta e não contara com sorte ao cruzar a mão dupla. Por uma série de tristes casualidades, fora jogado na loucura assassina de um autorama.

Não me passava maldade pela cabeça. Sei o quanto um cachorro costuma cheirar caminhos e se distrair com facilidade.

Até que descobri que existe um nazismo canino. Cachorros são abandonados na rodovia pelos próprios donos. Aquilo que vejo todo o dia não representa acidentes, é, sim, resultado de uma matança deliberada.

Famílias compram ou recebem de presente um cãozinho, acham que é barbada cuidar, enfrentam uma semana de experiência, gastam demais com ração e higiene, e decidem sacrificar o hóspede. Sem tempo a perder, desaparecem com as provas de uma existência. E ainda raciocinam que não é um assassinato, que Palmira Gobbi é apenas o nome de uma avenida. Fingem acreditar que não cometeram mal nenhum, largaram o pequeno à mera provação do destino.

O motivo é sempre gratuito. Matam o cão para prevenir incômodos. Ou porque ele adoeceu ou envelheceu. Ou porque o remédio e o veterinário são caros ou porque o abrigo é longe e não podem se atrasar para o trabalho.

Que mundo é este? Pela janela, eliminam uma vida com a leviandade de alguém que arremessa longe uma bagana de cigarro, uma embalagem de picolé, um saco de salgadinho. Absolutamente crentes na impunidade.

Quem faz isso não merece perdão. Não merece explicação. Não merece defesa. É um crime premeditado. A mais implacável execução que conheço, antecedida de lenta tortura emocional.

Repare na insensibilidade: o dono mente ao seu cachorro que irão passear, para desová-lo no corredor da morte. Calcule o terror do bichinho quando não entende o castigo, e corre uivando, desesperado, atrás de um carro que nunca será mais o seu.

Cansei de esconder os olhos de meu filho.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 29/11/2011
Porto Alegre (RS), Edição N° 16902
Postado por Fabricio Carpinejar 

Campanha nacional permanente - “Fecha canil do CCZ - Tortura nunca mais” Eu aderi. (cole o slogan/link no email, blog, seja criativo)

2 comentários:

Anônimo disse...

O mais triste é que pessoas que são capazes de fazer isto pensam que fizeram a coisa certa, simplesmente facilitaram a vida, livrando-se de um incômodo. Acho triste pq traz a certeza de que esta realidade está longe de mudar!

Anônimo disse...

As pessoas sem coração acham que os animais são como bichos de pelúcia, brincam com eles qdo chegam, depois qdo ficam velhos, jogam num canto pois não servem mais.... ou até jogam pelas ruas sem nenhuma culpa!!!! Qdo tudo isso vai acabar? Tenho 5 em casa e são como meus filhos, deixo de fazer muitas coisas pensando neles... Espero que um dia as pessoas se conscientizem de que os animaizinhos tbm sentem frio, fome, saudades, tristezas e alegrias.... Obrigada e que 2012 possamos ter notícias mais alegres pra esses que só nos trazem amor!!!!Deus os abençoe!!!! Obrigada!!!!